Por Jamilla Salviano
Se você lidera uma escola pública, você não lidera uma “equipe”. Você lidera um sistema vivo: gente cansada, gente brilhante, gente ferida, gente resistente — tudo ao mesmo tempo. E não dá para romantizar: a escola brasileira é enorme e opera sob pressão constante.
Pra gente começar do jeito certo, olha o tamanho do cenário: em 2024, a educação básica no Brasil registrou 47,1 milhões de matrículas, em 179,3 mil escolas, com 2,3 milhões de professores e 163.987 diretores. (INEP Download)
Agora vem um dado que explica muita coisa: apenas 22,6% dos diretores declararam ter formação continuada em gestão escolar (mínimo de 80 horas). (INEP Download)
Ou seja: a demanda é gigante — e a preparação institucional, muitas vezes, insuficiente.
Quando a gente fala “equipe difícil”, quase sempre estamos falando de um ambiente que ficou difícil.
A escola ficou mais tensa — e os dados confirmam
Nos últimos anos, a escola passou a conviver com uma escalada de conflitos, insegurança e adoecimento emocional.
- Violência interpessoal nas escolas: registros passaram de 3,7 mil vítimas (2013) para 13,1 mil (2023). (Revista Pesquisa Fapesp)
- Dentro desse mesmo retrato, houve 2,2 mil casos de violência autoprovocada (como automutilação e tentativas de suicídio) — e esse tipo de ocorrência cresceu de forma alarmante no período analisado. (Revista Pesquisa Fapesp)
- Bullying: a proporção de estudantes que relataram ter sofrido bullying subiu de 30,9% (2009) para 40,5% (2019). (Revista Pesquisa Fapesp)
- Faltas por sensação de insegurança: em 2019, 11,4% dos estudantes do fundamental relataram ter deixado de ir à escola por se sentirem inseguros (mais que o dobro de 2009, 5,4%). (Revista Pesquisa Fapesp)
- E a escola também virou palco de perseguição e intimidação ao trabalho docente: uma pesquisa nacional com 3.012 profissionais apontou que “nove em cada dez” já foram perseguidos diretamente ou presenciaram perseguições/censura; na educação básica, 61% relataram ter sido vítimas diretas. (Agência Brasil)
Some a isso o adoecimento: em um estudo com 221 docentes da rede municipal (Bagé/RS), 6,8% apresentaram burnout, 22,1% sintomas de ansiedade e 14,5% de depressão. (Revistas Unijuí)
Então, antes de concluir que “a equipe é ruim”, eu te convido a pensar com maturidade: muitas equipes estão reativas porque estão saturadas. Isso não desculpa comportamento inadequado — mas muda totalmente a forma de liderar.
O que de fato torna uma equipe “difícil”?
Na prática, eu vejo cinco padrões se repetindo em escolas públicas:
- Falta de clareza (regras viram sugestões; combinados não têm consequência).
- Falta de direção (muita urgência, pouco propósito compartilhado).
- Cultura de bastidor (fofoca, ironia, boicote silencioso, resistência passiva).
- Adoecimento e sobrecarga (e a resistência vira mecanismo de defesa).
- Medo de conflito (o gestor evita, a equipe testa limites).
A pergunta não é “como controlar pessoas”. É: como construir uma cultura que sustente o trabalho — mesmo com pessoas difíceis dentro dela?
7 decisões de liderança para virar o jogo (sem virar autoritário)
1) Pare de negociar o inegociável
Toda escola precisa de um núcleo duro, simples e repetido:
- respeito nas relações (sem gritos, humilhação, exposição);
- responsabilidades mínimas (horário, registro, devolutivas, rotinas);
- proteção do estudante (sempre prioridade);
- comunicação profissional (sem recado atravessado, sem “disse-me-disse”);
- decisões por critérios (não por pressão).
Equipe difícil adora “zona cinzenta”. O seu trabalho é reduzir a zona cinzenta.
2) Separe “dificuldade” de “toxicidade”
Nem toda resistência é maldade. Mas existe comportamento que contamina.
Faça um diagnóstico real (e sem drama), classificando casos:
- Desalinhado (não entendeu/ninguém cobrou)
- Desmotivado (perdeu sentido; precisa de reengajamento e condições)
- Inseguro (medo de mudança; precisa de apoio e acompanhamento)
- Oposicionista (contesta tudo; precisa de limite e consequência)
- Tóxico (fere, desorganiza, persegue; precisa de intervenção formal)
Sem essa separação, você trata tudo igual — e aí erra com quem precisa de cuidado e passa pano para quem precisa de limite.
3) Implante rituais de gestão (o básico que quase ninguém sustenta)
Equipes difíceis pioram quando o gestor só aparece em crise.
Três rituais simples, com consistência:
- 1:1 quinzenal (10–15 min) com quem está em conflito/desalinhado
- reunião curta e objetiva (pauta + tempo + encaminhamentos + responsáveis)
- devolutivas pequenas e frequentes (não espere “a grande reunião”)
Isso diminui ruído, aumenta previsibilidade e reduz fofoca.
4) Feedback não é bronca: é ferramenta de direção
Use um modelo prático (e repetível):
Fato observado → impacto → expectativa → apoio + prazo
Exemplo (tom firme, sem agressividade):
“Na última reunião, você interrompeu três colegas. Isso enfraquece a colaboração e aumenta tensão. A partir de hoje, espero que você faça suas colocações após o colega concluir. Se estiver difícil, eu te ajudo com um combinado de fala. Na próxima reunião, vou observar e retomar com você no final.”
Feedback bom não humilha, mas também não pede desculpa por liderar.
5) Quando a resistência virar sabotagem, formalize
A escola pública tem limites legais e institucionais — e o gestor se protege com processo.
Se há recorrência (atrasos, descumprimento, insubordinação, assédio moral, perseguição), você precisa:
- registrar ocorrências objetivas (data, fato, impacto);
- dar ciência ao servidor (assinatura/ciência formal quando aplicável);
- acionar orientação da rede (RH/SEDUC/SME, inspeção, supervisão, jurídico quando for o caso).
Clima escolar não se melhora “na conversa” quando existe violação sistemática.
6) Crie “acordos de trabalho” visíveis, não “combinados emocionais”
Acordo bom é o que vira documento simples e praticado:
- como circula informação (onde é oficial; onde não é);
- prazos pedagógicos (diários, planejamentos, conselhos);
- critérios de decisões (substituição, projetos, eventos);
- como a escola trata conflito (fluxo e instâncias).
Equipe difícil detesta regra clara — porque regra clara corta manipulação.
7) Proteja sua equipe (e você) do adoecimento e da violência
Com os indicadores de violência e insegurança crescendo no ambiente escolar, a liderança precisa parar de “normalizar” sofrimento. (Revista Pesquisa Fapesp)
Na prática, isso significa:
- protocolos de convivência e prevenção (comissões, fluxos, registros, rede de proteção);
- acolhimento com limite (escuta não é “passar a mão”);
- articulação com saúde, assistência, conselho tutelar quando necessário;
- e cuidado com o gestor: ninguém lidera bem esgotado.
E aqui entra uma provocação técnica: se só 22,6% dos diretores tiveram formação em gestão (80h+), então a escola precisa criar microformações internas para a equipe (conflito, comunicação, rotina, proteção, registros). (INEP Download)
Uma escolha prática para a próxima semana
Se você quiser começar pequeno (mas certo), faça isso:
- Escreva 5 inegociáveis da cultura de trabalho.
- Apresente em reunião rápida.
- Combine duas rotinas de acompanhamento (ex.: prazos + comunicação oficial).
- Aplique um feedback estruturado em um caso real.
- Registre encaminhamentos. Consistência é o seu superpoder.
Liderar equipes difíceis não é sobre agradar pessoas. É sobre proteger processos, pessoas e propósitos — principalmente os estudantes.
Sobre a autora
Jamilla Salviano é professora, pedagoga e mentora de líderes escolares, com atuação na educação pública brasileira.



